Um ano depois…

Jun 17, 11 Um ano depois…

Confesso que este é um exercício de retrospecção já muitas vezes feito ao longo deste ano, mas tentarei dar a minha perspectiva e recordar alguns apontamentos absolutamente hilariantes quando analisados há distância de pouco mais de um ano. E como é fantástico verificar como um “curto” espaço de doze meses transforma os estados de espírito, os discursos, mas (in)felizmente não modifica muito as mentalidades.

Desde teorias da conspiração, boicotes, “amuos” até à constatação de que “afinal não tínhamos equipa suficiente” e que “perdemos muito tempo em festejos”, esta época foi um autêntico fartote de comédia e peripécias dignas dos mais talentosos artistas do ramo do “ridículo”.

O Verão de 2010 foi para mim passado, a nível futebolístico, unicamente com as peripécias da selecção nacional pelo continente africano. Apenas no decorrer desta época dei conta da histeria e discurso exacerbado com que o povo benfiquista passou os dias mais quentes do ano passado. E confesso que me ri muito e que ainda me continuo a rir tal como muitos de vocês. É (quase) inacreditável tanta sobranceria, facilitismo, excesso de confiança e promessas ocas. E tudo com base num campeonato nacional conquistado na última jornada.

Relativamente a este ponto quero aqui relevar o facto de que eu não partilho nem nunca partilhei da opinião de que o FCP perdeu o campeonato de 2009/2010 unicamente pelos ditos “túneis”. No meu ponto de vista tanto o Braga como o Benfica seriam justos campeões, tendo em conta esse contexto, muito embora existam aqui alguns pontos que jamais devem ser ignorados e que marcaram o Campeonato Nacional 2009/2010:

  1. O Benfica jogou quase um terço do campeonato em superioridade numérica (9 jogos), dos quais 5 jogos contra 9 e 4 jogos contra 10. Saldo final de 6 vitórias, 2 empates e 1 derrota. Em abono da verdade diga-se que em pelo menos dois casos (6ª jornada com Leixões e 18ª com Vitória Setúbal) as respectivas expulsões foram tardias e poder-se-ão discutir os reais impactos das mesmas no decorrer dos jogos e resultados finais dos mesmos. Ver aqui
  2. A 22 de Dezembro de 2009 a CD da Liga aplica castigo (mais tarde provado abusivo) de 4 meses a Hulk e 6 meses a Sapunaru por agressão a “funcioná”ios” do Estádio da Luz. Desta forma, o FCP viu-se privado de dois jogadores fulcrais (basta olhar para esta temporada). Hulk foi afastado irregularmente de 14 jogos(!) tendo falhado no total 17 jogos, dos quais apenas 3 seriam relativos ao afastamento legal do jogador. Já Sapunaru parou durante 8 jogos, quando o castigo real seria de metade desses jogos. De recordar também que a reposição da verdade dos factos foi efectuada no final de Março de 2010 pelo CJ da FPF, quando o FCP já tinha as suas hipóteses de renovar o título praticamente hipotecadas. Relembro também que com o regresso de Hulk à competição o FCP não mais perdeu no campeonato.
  3. O Braga sofreu uma decisão igualmente “bizarra” deste mesmo CD da Liga, vendo o seu capitão de equipa Vandinho inexplicavelmente afastado da competição por suposta agressão a um elemento da equipa técnica do Benfica. Não foram reveladas provas através de imagem ou de qualquer outro meio, a decisão teve por base apenas o testemunho do treinador-adjunto benfiquista. O jogador foi castigado por 3 meses tendo cumprido a totalidade do mesmo.

Todos estes factos são pormenores que à primeira vista poderiam passar despercebidos, mas com tudo o que se viu este ano acho que ficaram clarificadas imensas coisas e que a “montanha pariu um rato” na verdadeira acepção da palavra. Senão vejamos: o Benfica sagra-se campeão nos últimos 45 minutos da temporada, vence a malograda Taça da Liga e fica pelo caminho na Taça de Portugal, conquistada pelo FCP. Para além disso há aqui um facto inalienável e que ninguém jamais pode negar:


O Benfica ultrapassou uma “concorrência” (Braga e Porto) que viu injustamente impostas ausências importantes no plantel.


No entanto, não podemos ignorar que este ano também nos vimos privados de Falcão (por questões naturais de lesão) durante muito tempo. Mas tínhamos Hulk e um grupo mentalmente imbatível e impenetrável, por mais desequilíbrios que tentassem enviar do exterior. O FCP desta época estava “blindado” e de peito aberto para a glória, mas sempre humilde, sempre trabalhador e fazendo a merecida festa apenas na hora da conquista.


Mas – e em retrospectiva – foi com festa, muita festarola que começou a época de 2010/2011. No rescaldo da histeria benfiquista, a Supertaça Cândido de Oliveira era um troféu ganho à partida. A pré-época e para não variar conhecia o seu habitual vencedor e o excesso de confiança do lado dos campeões nacionais transbordava todas as fronteiras do razoável, mas para o Benfica tudo é razoável, até começar o jogo dentro das quatro linhas. E aí, foi o primeiro choque da temporada, foi talvez o primeiro momento em que os “gigantones” que venceram nada mais que o campeonato transacto sentiram a relva de novo debaixo dos seus pés, aquela relva da qual já andavam longe, a pairar desde há largos meses. E o desafio dentro do campo tem um resumo muito sucinto:

Um festival de bola por parte do vencedor da Taça de Portugal e um recital de pancada protagonizado impunemente pelos “fabulosos” campeões.

Mas, mesmo assim, não foi suficiente este embate para que o deslumbramento fácil da nação benfiquista ganhasse algum realismo.

Já a nação portista (de difícil deslumbramento) viu nesta vitória uma enorme satisfação, mas o sentido de que ainda “nada” estava ganho e que estes eram apenas bons indicadores de que o caminho para a retoma estava orientado. E que retoma, que época, que epopeia … e não me alongarei mais nas palavras pois já muitas escrevi e essas sim cheias de deslumbramento, de emotividade e de devoção por este mágico Porto que tantas alegrias nos deu neste ano de autêntica e poderosa “revanche”, quando por meses se vaticinou uma viragem na hegemonia nacional.

Mas não foi só no campo da comédia amadora que o clube da luz “brilhou” no defeso de 2010. Também um profissional da “arte do riso” teve “pano para mangas” com que entreter o seu público através de graçolas promovendo loas ao seu clube campeão. Estou obviamente e falar de Ricardo Araújo Pereira, também conhecido como “fedorento” ou abreviadamente “RAP”.

No rol de pérolas produzidas por este senhor a respeito do tema, temos o célebre vídeo do “Renovava com Jesus até 2050” que podem ver a seguir:


Quero, num exercício de análise à suprema comicidade deste profissional do riso fazer algumas notas de relevo que acho importantes do seu discurso:

(Relativamente ao afastamento do FCP da Liga dos Campeões):Desejo-lhes boa sorte na Liga Europa (tom irónico), juntamente com o Sporting e nós vamos para a piscina dos grandes jogar a sério e tal” – julgo que RAP se esqueceu que na “piscina dos grandes” há zonas em que o Benfica já não tem pé e portanto seria prudente ter levado consigo umas bóias, nem que fossem daquelas com um patinho na frente, que até combinava com o tema aviário do símbolo do clube.

Se o Benfica ganhar o campeonato é possível que eu passe uma semana embriagado” – eu aqui acho que, tal como RAP, os adeptos benfiquistas andaram embriagados com este título até meados de Abril deste ano. Por isso, nada a dizer.

(Se fosse presidente do Benfica por quanto tempo renovava com Jesus?):Oh, renovava até 2050! Para já não posso ser presidente do Benfica porque não tenho categoria para isso” – categoria pode não ter caro RAP, mas lábia e conversa fiada tem muita, por isso rumo às urnas com o comediante! Ah é verdade e “Jesus, forever!”

Também vos convidava a ler uma prosa composta pelo mesmo autor em que este se debruça ironicamente sobre a “falta de currículo” de André Villas-Boas no início desta época. A isto se chama obsessão pelo rival, mas não posso negar que a distância de um ano faz com que a leitura deste texto tenha ainda mais graça e brilho do que à data em que foi escrito. Podem ler aqui

Ricardo Araújo Pereira, um comediante que só tem boa piada “futeboleira” quando o Benfica ganha. Quando o seu clube volta ao padrão normal de vivência, já entra no campo da graça meia aziada e “chocha” e esgota-se em redundâncias.

Mas caro RAP, deixo aqui um repto pessoal para testar esta afirmação que acabei de proferir e convido-o a fazer um balanço humorístico desta época em que os seus desejos de “boa sorte” ao FCP na Liga Europa deram na vinda do caneco para o Dragão. Pode ser que nos surpreenda com uma dose de ironia e anti-portismo retorcido em piadas com alguma ponta de comicidade.

Caso contrário, meu estimado RAP volte para as rábulas do quotidiano, porque de futebol vocês “falam, falam, mas não dizem nada”.

Abraços e até para a semana,
Diana Maia

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