Tempos Conturbados
Um artigo de Carlos Ribeiro, um Vitoriano que aceitou o convite do nosso blogue para comentar semanalmente os assuntos do futebol português e do seu clube em particular!
“Só duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana mas quanto ao universo, ainda não tenho bem certeza”. Esta é uma citação habitualmente atribuída a Albert Einstein. Não sei se terá sido dita mesmo pelo físico alemão, mas assenta que nem uma luva ao mundo do futebol. Um mundo onde cada vez menos me reconheço. Confesso-me ainda daqueles líricos que acha que o futebol ainda é só paixão, um daqueles desportos onde dá gosto ir acompanhado da família. Cada vez menos me revejo naquilo em que se tornou o desporto-rei, uma desculpa para a arruaça, para a intimidação, para a libertação de frustrações.
O que sucedeu esta terça-feira num treino do meu clube, é motivo de vergonha para a esmagadora maioria dos vitorianos que não se revêm em atitudes do género. Importa no entanto, que uma vez mais se deixe bem claro que é perigoso, como sempre, tentar tomar a parte pelo todo. Tal como se provou no referido treino ou se comprova um pouco por toda a blogosfera ou sítios ligados ao Vitória Sport Clube, a maioria dos vitorianos condenam, como teria de ser, de forma veemente os actos de uma minoria. Assim como a maioria dos portistas lamentará o célebre “ataque” de que foi alvo Co Adriense, da mesma forma que os benfiquistas não se reverão na tragédia da Taça de Portugal de 1996, que os Sportinguistas repudiarão o espectáculo triste da último noite eleitoral, ou até que a maioria dos braguistas não concordará com alguns actos menos próprios dos seus adeptos. Apenas para citar alguns exemplos.
Adeptos do Vitoria agridem jogadores no treino – ler aqui
Co Adriaanse atacado no Olival – ler aqui
Recapturado autor do disparo mortal do «very-light» – ler aqui
Confrontos marcam noite eleitoral no Sporting – ver aqui
Vandalismo no Braga – ler aqui
A imagem dos clubes fica afectada, sempre que uns resolvem manchar o nome do clube com acções de intimidação, mas é obrigação dos demais tentar que não continue a passar para os outros que todos os adeptos dos ditos clubes não têm a noção dos limites.
E isto não é, infelizmente, um caso único no futebol. Não faltam exemplos de adeptos que aproveitam cada oportunidade para mancharem negativamente o nome dos clubes. Mas – e aqui felizmente – continuo a acreditar que a maioria continua a condenar de forma clara e intransigente cada acto de violência no futebol. E também por isso, é fundamental que os responsáveis dos clubes condenem e se afastem deste tipo de atitudes, assim como os adeptos e suas organizações:
Comunicado Oficial do Vitoria – ler aqui
Deplorável – ler aqui
Comunicado AVS Quanto Aos Incidentes No Treino – ler aqui
O amplo destaque que aqui estou a dar a este caso, prende-se apenas com a necessidade de ser coerente. Para condenar atitudes de outros, tenho sempre de começar por condenar aquelas que são provocadas por “adeptos” do meu clube.
O “caso” de ontem foi o culminar de uma semana complicada vivida em Guimarães. Num ápice, o Vitória foi eliminado da Liga Europa e somou a sua segunda derrota no campeonato, perdeu o seu treinador e contratou outro. E, se a eliminação das competições europeias, frente a uma equipa que tem um orçamento de 120 milhões, nem seria de espantar, o modo como ocorreu e a exibição paupérrima protagonizada pelo Vitória contra o Beira Mar é que seguramente deixou os vitorianos exasperados.

O plantel tem mais qualidade e é mais equilibrado do que o do ano transacto, mas é uma equipa sem fio de jogo, sem organização e estranhamente apática. E essa responsabilidade era também de Manuel Machado, um treinador que nunca foi capaz de conquistar a simpatia dos vitorianos, mas estaria longe de ser o único problema.
O problema vitoriano está bem mais acima e, caso não seja resolvido, temo que o novo treinador – Rui Vitória – possa também ele não escapar. Mas, enquanto isso não é possível, é nossa esperança que o Rui que até tem um apelido que encaixa que nem uma luva, nos traga os sorrisos que têm faltado e que vá, no que lhe for possível, esconder alguma incompetência directiva ou disfarçar o amadorismo da estrutura. Para já, o discurso inicial agradou e falou naquilo que os sócios gostam. Paixão. Alegria. Jogar sem medo. Se o conseguir transportar para o campo, estou certo que podemos ter boas alegrias.
Frases – ler aqui
Finalizo com a supertaça europeia. Primeiro para dar os parabéns ao FC Porto pela forma como abordou um jogo terrivelmente complicado, frente a um adversário de outro planeta. Fê-lo descer à terra e discutiu o jogo, resolvido por alguns erros, mas mostrando uma capacidade que ainda não se tinha visto nas duas primeiras jornadas do campeonato. Quanto à arbitragem, deixem-me apenas dizer que uma vez mais, prevaleceu a famosa “lei do mais forte”.
Aquela que muitos negam quando lhes convém mas que a maioria se insurge quando lhes toca. Em caso de dúvida, foi beneficiado o mais poderoso. Neste caso, o Barcelona. Caso não muito diferente do que acontece em Portugal, na célebre distinção entre os 3 e os outros 13. Neste jogo, coube aos portistas serem os prejudicados. E… custa, não custa?
Saudações vitorianas e até para a semana,
Carlos Ribeiro
ovimaranes




