Garra e Raça, parte II
Cinquenta (50!) jogos sem perder na prova máxima do futebol português, o Campeonato Nacional. Fosse o protagonista outro clube, sediado geograficamente mais a sul e o que se diria, as parangonas, loas, glorificações inesgotáveis que se fariam.
Ao invés publicita-se em letras garrafais que o Benfica é a única equipa na Europa que (ainda) não perdeu em jogos oficiais. Enfim, só mesmo neste país de medíocres é que se podem apreciar estas alarvidades. Ainda para mais depois do que o F. C. Porto fez a época passada, chamar a isto ridículo é um mero elogio.
Mas enfim, os números são daquelas coisas que são inalienáveis, imunes a fanatismos e mentes quadradas e a esse nível o F. C. Porto tem felizmente muitos argumentos em seu favor, plasmados não nos elogios internos (que escasseiam neste país de mesquinhos e invejosos), mas sim na opinião internacional, isenta e bem impressionada com a organização da estrutura portista que com (muito) menos recursos do que outros “gigantes”, conquistou brilhantemente um estatuto mundial indiscutível.
Relativamente ao jogo com o Sp. Braga, foi possível ver algo do Porto do ano passado mas mais uma vez a defesa que tarda em consolidar e garantir segurança. Numa noite em que Hulk voltou aos seus recitais de melhor qualidade só mesmo os minutos finais é que destoaram numa exibição bastante agradável e mais uma vez com a garra e raça que ditaram uma continuidade da atitude do jogo com o Shaktar. Fica sem dúvida o conforto de que, após a “hecatombe” de Coimbra e numa fase em que errar seria fatal, foi precisamente quando se começaram a ver sinais de retoma na equipa. Dedo de Pinto da Costa ou não, o que esperamos é que esta “retoma” continue em direcção aos objectivos com uma ambição renovada.


P.S. 1. A aventura inglesa de André Villas-Boas (AVB) parece começar a perder por completo o encantamento inicial. Esta época numa mega estrutura, onde os milhões (e os bons jogadores) abundam, está para já a “anos-luz” daquela protagonizada ao leme do clube do seu coração e que ditou o seu lançamento para os grandes palcos europeus e mundiais como treinador principal. Será que foi precoce e precipitada esta decisão tomada por André de mudar de ares logo após a época de retumbante sucesso que teve no “seu” Porto? Acho que a essa questão o tempo se vai encarregando de responder.
E a esta fase “tremida” de AVB nos “blues” não será decerto alheia a ausência do seu adjunto Vítor Pereira que, num acto de lealdade que por vezes tendemos a esquecer e desvalorizar, decidiu tomar em suas mãos o comando de uma equipa cujo sucesso atingido definia níveis de exigência absolutamente assustadores para muitos treinadores desta “praça”.
Já se fala até em terras de Sua Majestade sobre a possibilidade de Abramovich “descartar” o miúdo português que nitidamente não está a mostrar as qualidades que lhe deram o cognome de “Special two”. De qualquer forma, uma coisa é certa: se há algo em que esta aventura estrangeira é compensadora para André, é no aspecto financeiro pois quer fique, quer saia, a sua conta bancária não irá parar de crescer a um ritmo absolutamente alucinante e inimaginável para nós meros “mortais”.

P.S. 2. Relativamente aos resquícios do derby da segunda circular, com as tristes cenas incendiárias (literalmente e não só) antes e após o desafio, apenas me ocorre dizer que realmente estas situações são absolutamente lamentáveis a todos os níveis. É também nestes momentos que eu e todos os portistas sentimos uma ligeira vontade de sorrir por dentro, relembrando as constantes calúnias e tentativas de imputar exclusividade destes episódios ao nosso clube. Pode ser que vá entrando em algumas cabecinhas mais facciosas a ideia de que bons e maus há-os em TODOS OS CLUBES INCLUINDO O SEU! Entendido? Adiante.
Ora, mas muito embora eu condene veementemente a atitude de um grupo (restrito) de sportinguistas que incendiou as cadeiras do Estádio da Luz, julgo que ficou à vista que esta colocação da rede de segurança serviu na perfeição os intentos do Benfica de inflamar os ânimos, ainda para mais tendo vencido o desafio.
Posso estar a ser precipitada ou até errada na análise, mas perante o timing e a forma gratuita com que o Benfica decidiu colocar esta estrutura, adicionando todos os incidentes relatados pelos adeptos visitantes, ainda para mais num período de total pacificação entre os dois clubes, acho que esta decisão (embora totalmente legítima) não é inocente. Pode ter tido a melhor das intenções, mas não me parece de todo, até porque a aplicação destas estruturas não é regra a nível europeu (nem sequer é usada em provas oficiais de nível internacional) e apenas se utilizam quando os níveis de hostilidade entre osclubes envolvidos são extremos e os adeptos sejam “incontroláveis” dentro do recinto.
E mais a mais é muito interessante ver um clube que ao colocar esta estrutura alega preocupações com a segurança dos adeptos visitantes e depois relembrar que ainda na época passada, num clássico de “alto risco” com o seu maior rival e no qual os adeptos e jogadores visitantes fizeram a festa do título, a direcção desse mesmo clube ter apagado as luzes do estádio, deixando apenas ligadas as débeis luzes de bancada e as forças policiais à mercê de um “motim no escuro” com as graves consequências que daí poderiam advir.
A recordação do episódio da ligação da rega em conjunto com o subtil “apagão” nesse jogo, só colocam a nu toda a demagogia e falta de vergonha na cara que esta direcção do Benfica tão pomposamente ostenta.

Abraços e até para a semana,
Diana Maia




